Huxley e Orwell estavam certos.

Em uma semana que muita gente começa a concordar com a Miriam Leitão sobre o emburrecimento do debate que a direita brasileira tem trazido, em que o prefeito do Rio derruba a perimetral a mercê de todos laudos técnicos, em que (para os “agentes de segurança” que portam farda), o Justin Bieber tem passaporte diplomático na “lei do vandalismo”. Nesta semana (!?) eu começo a pensar se Orwell e Huxley, os dois não teriam razão, por mais incrível que possa parecer. Entre 1984 e o mundo feliz, ficamos com o pior dos mundos.

Se todos somos produtos do meio, Huxley é produto de guerras mundiais e um país cuja liberdade é um slogan que gera prisões. Orwell foi certamente marcado pelo que viu entre impérios monárquicos, ditaduras e guerras civis. Ambos transpareceram em seus livros uma visão particular de mundo. [aqui tem uma explicação bem legal – mas, com uma tese diferente da que exponho aqui].

O pior é crer que os dois tem razão ao mesmo tempo. Orwell e Huxley. Que vivemos em um mundo em que o exercício de pensar é baseado em atalhos de informação de muito pouca qualidade e que isso, de alguma forma, é ocultar. Um mundo onde cada dia mais informação é produzida, e o mais difícil é saber diferenciar a que vale a pena do que não vale. Um mundo em que muita informação ruim é produzida, e muita, muita informação importante é ocultada. E quem desafiar esse contexto deve ir pra… Russia (literalmente).

Um mundo em que um jornalista ao invés de atuar de acordo com a realidade e com a sua função social, escreve atendendo ao seu preconceito, seu editor e a necessidade comercial. Um mundo em que a censura é uma censura de mercado. Uma censura que também é política, no entanto, invisível. “Isso vamos publicar, isso não. Isso tira, vai pegar mal pro fulano, isso ai não precisa verificar. O portal uol já publicou, dá enter logo nisso.”

Um mundo em que a ciência de qualidade demora em suas análises (pois tem que demorar), em que os resultados fiáveis não vendem, em que o jornalismo de qualidade não tem espaço, o pseudo-jornalismo impera e a maioria das pessoas da era da informática usa memes e hoax como fonte de informação.

O mundo em que somos ao mesmo tempo bestializados e alegres. Revoltados e infundados. Um mundo em que estamos insatisfeitos e não sabemos entender com o quê (e ai jogamos a culpa no governo Dilma, na Merkel, no PT, até no jogador de futebol). Um mundo de manifestações de milhões sem slogan, sem bandeiras, sem partidos, sem tomar partido.

Um mundo em que é preciso que alguém não tenha grama, para que a nossa seja mais verde. Mais e mais, até que se criem os 10 mandamentos de uma grama mais verde no camarote.

Um mundo em que temos soberania de papel, mas não sabemos como exercê-la. Em que somos vigiados e nem sabemos por quem. E vivemos em uma espécie de panoptico ao contrário. Em que aqueles que precisavam ser vigiados não tem quem os vigie.

Um mundo em que Orwell e Huxley estão certos ao mesmo tempo, é um mundo tão estranho que até a Miriam Leitão faz sentido, as vezes.

Um admirável mundo estranho.

 

Como eu disse, a tese de Neil Postman é um pouco diferente:

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